O bar estava com uma quantidade razoável de pessoas para uma noite de sexta-feira na capital pernambucana. Uma ou duas mesas sem nenhum grupinho de amigos ou um bebum solitário reclamando dos infortúnios da vida. Eu me chamo Frederico e estou há meia hora esperando meus amigos para a nossa tradicional reunião semanal.

Eu fui avisado. Quer dizer, nós fomos avisados no grupo que o João iria se atrasar. O que não é novidade para mim ou para os caras, mas que irrita da mesma forma. O Agenor disse que estava perto do Plaza, mas isso foi há 15 minutos. O Claudinho deve ter ficado no caminho dando autógrafos para alguma fã de música baiana, elas acreditam piamente que ele é um integrante de uma banda de axé famosa. Sim, ele é alto, forte e anda por aí de calça e camisa regata branca. Lamentável, devo dizer.

– Amigão… – eu falo levantando a mão em direção a um garçom, ele olha para mim. O cara é baixinho e magrelo, eu nunca o vi por aqui. Ele atendia um grupinho entusiasmado de mulheres numa mesa. Não demorou muito, concordou com algo que uma delas acabou de falar (um pedido provavelmente) e veio em minha direção.

– Diga, senhor. – ele falou.

– Veja aí outra cerveja pra mim, por favor? E se tiver saindo algum filé com fritas, traga também. – falo percebendo que uma mulher olhava para mim. Ela era bonita, parecia ter uns trinta anos e estava sozinha numa mesa. Vestia uma camiseta clara, que poderia ser um vestido. Não dei muita bola porque sei que não é natural uma mulher desse naipe olhar para mim desse jeito. Eu conheço as minhas probabilidades. Sou baixo, um metro e sessenta e cinco de altura, uso barba, tenho o cabelo curto e sou meio gordinho – não aquele tipo desleixado, estou mais para um cara que malhava, ficou acima do peso e abandonou temporariamente a academia. Os meus amigos dizem que eu me encaixo num esteriótipo que ultimamente tem chamado atenção – a febre dos lumberjacks, ou estilo lenhador. E para completar, trabalho numa barbearia. De qualquer forma, sei que ela deve estar me achando parecido com algum conhecido dela.

– Ok, senhor. É pra já! – o garçom responde e se vira para sair, tomando um susto que o faz dar um passo para trás. Havia um homem forte e alto logo atrás dele. – Desculpe. – o garçom fala colocando a mão no próprio peito como se estivesse tendo um ataque cardíaco e sai.

– Que nada, a culpa foi minha. – Cláudio falou sorridente, e em seguida veio em minha direção.

– Finalmente, hein Claudinho? – falei e ele fez logo uma cara feia. Nós o chamamos assim para brincar com a altura e o porte dele.

– Fred meu velho, tinha uma vovó numa Ecoesport na lateral do estacionamento do Plaza atrapalhando todo o trânsito. Um cara tentou ultrapassar ela e quase bateu em quem vinha na contramão. Eu preferi esperar.

– Ok, vou fingir que acredito. Você teve notícia dos caras? – perguntei com um sorriso cínico e com os olhos cerrados como quem acabou de identificar uma mentira em potencial. – O Agenor disse que estava por ali, faz uns vinte minutos.

– É sério, cara. – ele falou tentando disfarçar. Honestamente ele deveria estar se agarrando com alguma pseudo-fã, mas preferiu não se estender no caso da vovó da Ecoesport, dizendo em seguida que não havia falado com os caras desde as oito da noite.

– Pois é, ele disse que estava perto do Plaza e até agora nada. O João foi o único que nem uma desculpa esfarrapada deu ainda. – falei olhando por cima das cabeças das pessoas, tentando enxergar algum sinal de um cara magro, alto e desengonçado, mas ninguém se encaixava nesse perfil. O Agenor também estava atrasado.

– Você já deveria estar acostumado… – falou sorrindo. – Olha, já pediu outra cerveja? – ele perguntou pegando a garrafa e balançando, notando que estava vazia. Eu assenti com a cabeça.

Já estávamos na terceira garrafa quando o Agenor chegou. Dois caras numa mesa perto da entrada do bar ficaram olhando para ele e rindo. Apesar de já estarmos acostumados a pessoas olhando para ele desse jeito, não deixa de ser chato sempre que acontece. Agenor é um cara que chama a atenção. Não da mesma forma que o Cláudio, mas as pessoas também o olham quando ele passa. Um cara negro, alto e magro, que se mexe com estranheza e de forma quase desarmônica, nunca conseguiria passar despercebido. É como se ele tivesse crescido muito rápido e ainda estivesse descobrindo as proporções do próprio corpo, preso nos primeiros anos da adolescência. Nós o chamamos carinhosamente de TeenAge.

– E aí, Teen… também pegou trânsito por causa da vovó da Ecoesport? – perguntei.

– Como? – ele perguntou, ainda de pé perto da mesa. Ele afastou a cadeira para se sentar, com uma expressão confusa no rosto. – Não entendi, que vovó é essa?

– Ela estava atrapalhando o trânsito há pouco, ali perto do estacionamento do Plaza. – Cláudio comentou.

– Não, não, passei por lá agora e não tinha nada demais acontecendo. – Agenor respondeu.

– E por que a demora? – perguntei irritado, mas com um sorriso no rosto para disfarçar.

– Eu falei que estava perto do Plaza, mas estava com uma cliente. Deixei ela na perto do Saturdays e tive que dar a volta.

– Ah, tá. – o Cláudio e eu respondemos em uníssono.

– Cadê o João? – Agenor perguntou. – Alguém já ligou pra ele?

– Ainda não deu sinal de vida. – respondi. – A última vez que olhou o grupo do whatsapp foi há mais de duas horas. Nem vou me dar ao trabalho de ligar para ele.

– Não sei se já é do conhecimento de vocês, mas eu fiquei sabendo que ele está tendo um lance com uma mulher casada. – Agenor falou aproximando o rosto do centro da mesa, como um garotinho contando um segredo para os integrantes do seu grupo do bairro.

– Você está de sacanagem, né? – perguntei, perplexo. – O João?

– Claro que é mentira, não tá vendo a cara dele? – Cláudio comentou.

– Caras, não é mentira, não. Ela é esposa de um engenheiro daquelas empresas de tecnologia do Recife Antigo. – falou, novamente se inclinando.

– Porra, tá sabendo até dos detalhes? – Cláudio perguntou. – Quem te contou isso, uma passageira gostosa do Uber?

– É sério, cacete! – Agenor falou irritado. – E deve ser por isso que está atrasado. Vocês não sabem que é justamente depois do trabalho que os amantes se encontram? “Vou chegar um pouco atrasado hoje, amor.” Esse é o discurso padrão deles.

– De novo aquele lance do filme francês? Pelo amor de Deus, cara. – comentei. Agenor ultimamente falava muito de um tal de Encontro Marcado (que o título em inglês é “5 to 7”) em que uma francesa charmosa começa a ter um caso com um escritor iniciante e o cara não consegue aceitar o fato de ela e o marido traírem na cara dura um o outro. E que segundo eles, o franceses não se incomodam com isso e costumam fazê-lo entre as cinco e as sete da noite. É como um código entre eles.

Continuamos conversando por mais uma ou duas horas e nada de João chegar. Chegou a um ponto em que nós nem lembrávamos mais que ele estava atrasado ou se ele sequer viria. Na oitava cerveja, já estávamos bem alegres (menos o Agenor, ele estava no refrigerante), falávamos de assombrações, quando Agenor lembrou de uma lenda local, O General e a Mulher de Branco. Eu conhecia a história, por alguém que me contou na adolescência ou coisa parecida. O Cláudio ajustou-se na ponta da cadeira para ouvir cada palavra que saía da boca do Agenor.

– Pois é, segundo a lenda… quer dizer, segundo Gilberto Freyre, um general dos tempos da proclamação da república, ou pouco antes disso, sofreu uma tentativa de assassinato sinistra na ponte da Boa Vista.

– Como assim? – Cláudio perguntou.

– Um cara deu dois tiros nele e depois se jogou no rio Capibaribe. Ele foi encontrado dias depois com o rosto desfigurado. Já o general ficou com um ferimento no braço. A outra bala nem o atingiu. Ele sofreu com muitas dores e voltou para Portugal, morrendo anos depois.

– Tá, não vi nada demais nisso, Age. E essa mulher de branco? – Cláudio perguntou. Eu só observava os dois.

– Deixa eu terminar a história, né velho? – Agenor falou. – Pelo que dizem, ele ficou curioso ao saber de um sobrado do Recife que era, ou ainda é, assombrado. Lá existia um fantasma de uma mulher de vestido branco. E, segundo o que diziam, ela só aparecia ao homem a quem estivesse para acontecer desgraça ou infelicidade. O general, metido a valentão, foi ao casarão com seus companheiros e apenas ele viu a tal mulher. Tanto que o cara chamou a atenção dos outros gritando, mas ninguém, além dele, viu a assombração. Dias ou semanas depois, aconteceu o atentado da ponte.

– Interessante, não vou levar nenhuma gata para sobrados a partir de agora. Anotado. – Cláudio comentou sorrindo, fazendo um gesto como se tivesse escrito algo num caderno imaginário, e logo depois piscou o olho para uma mulher que o observava há alguns minutos da mesa ao lado.

– Olha lá o sumido. – comentei inclinando o queixo, apontando para a entrada do bar, de onde vinha o João. As roupas de tamanho um ou dois números acima, faziam o de sempre: transformavam o advogado rico sustentado pela família em um publicitário boêmio amante da Rua da Moeda. Ele parecia assustado e andava com uma pressa incomum.

– Finalmente, hein cara, onde você estav… – Cláudio falou mas foi interrompido pela avalanche de palavras que invadiu a mesa.

– Eu vi um fantasma. Caras, eu acabei de ver uma porra de um fantasma. – João falava mostrando a mão direita que tremia enlouquecidamente.

– Calma cara. – Agenor falou puxando a quarta cadeira da mesa para que o amigo se sentasse. – O que houve?

–  O fantasma do sobrado da capela, o fantasma do sobrado da capela… – João falava essa frase repetidas vezes, até que Cláudio o pegou pelos ombros e o balançou. O coitado do João ficou parecendo um pé de pitanga sendo sacolejado por um adolescente esfomeado no sítio do avô. Pelo menos aquilo o fez recobrar a sanidade. As pessoas já começavam a olhar para nós.

– Cara, do que você está falando? – perguntei. Agora eu estava realmente preocupado. O João às vezes ficava meio pirado com certas coisa. Tipo o lançamento de um livro do seu autor favorito, ou a estreia de uma série nova na Netflix, ou coisa assim. Mas desse jeito, eu nunca tinha visto. Ainda mais sobre assombrações, que ele nem acreditava, para falar a verdade.

Cláudio encheu o copo que ainda não tinha sido usado e deu para ele. João o pegou e tomou em um só gole. Nós três ficamos surpresos com a reação, ele detestava cerveja.

– Caras… – ele falou retomando o fôlego. – Eu estava passando pelo sobrado onde fica a padaria Capela no cruzamento da Avenida Rosa e Silva e a Rua Amélia, e vi uma assombração de uma mulher de vestido branco.

– Velho, esse sobrado… – Cláudio começou a falar, mas João o interrompeu.

– Naquela hora, o lugar já estava fechado, – João falou recriminando a atitude do amigo. – mas ela estava lá na frente olhando para mim. Eu cutuquei uma mulher que estava sentada ao meu lado no ônibus e mostrei a ela. Ela olhou, deu de ombros e voltou a ler o livro que levava nas mãos. O sinal de trânsito estava fechado e ela continuava lá me olhando, seu rosto pálido e o vestido balançando com o vento… foi então que eu puxei a camisa do cara que estava ao meu lado de pé e mostrei a ele. Eu estava assustado. Nunca tinha visto nada parecido. O cara olhou e fez um gesto parecido com o da garota leitora. Perguntando em seguida porque eu chamei a atenção dele. Estava claro que ninguém, além de mim, conseguia ver aquela mulher.

“Ela parecia deslocada, não era desse mundo. – ele continuou falando, e nós decidimos não o interromper ele até terminar. – Eu comecei a suar e a me tremer, depois desci do ônibus. Da parada seguinte ao sinal eu olhei para a padaria e a mulher continuava lá. As outras pessoas ficaram me olhando, como se eu fosse um louco. Foi então que eu corri na direção de um táxi que estava parado com o alerta ligado e entrei. Eu quase implorei para o cara me tirar de lá. Ele deveria ter um compromisso, mas percebeu o meu nervosismo e concordou.”

“O caminho todo eu continuei trêmulo e o motorista assustado ao meu lado. – João falou enxugando o suor que brotava em sua testa. – Quando o carro parou aqui eu o paguei e vim correndo para a mesa. E eu ainda estou muito assustado, galera.” – concluiu.

– Terminou? – Agenor perguntou.

– Sim. Foi isso. – João respondeu. – Vocês não estão acreditando em mim, né?

– Velho… – o Cláudio comentou cerrando os olhos para ele. – É uma história e tanto, não fosse pelo fato de o sobrado da padaria Capela não existir desde 2015.

– Hã? – João comentou. Eu só observava a situação.

– Pois é, Joãozinho meu caro… lá agora é uma farmácia. Faz algum tempo que o sobrado não existe. Acho que essa assombração te fez enxergar no passado. Por mais bizarro que possa parecer. – Cláudio concluiu.

– Ei, ei, ei… vocês não notaram ainda que isso aconteceu justamente quando a gente falava da lenda do General? – comentei balançando as mãos na frente deles, tentando atrair a atenção deles. – A tal mulher de branco aí, pela descrição, até que parecia a mesma da lenda, não acham?

– Do que você está falando, Fred? – João falou, inclinando o copo na direção de Agenor, para que ele preenchesse novamente com cerveja. – Quer dizer… do é que vocês estão falando? Vocês têm certeza que o sobrado não existe mais?

– Cara, é sério. – Cláudio falou. – Vocês lembram, né? Lá era um sobrado de dois andares, erguido há muitas décadas. E pelo que eu soube, na época da construção, nem o nome da avenida era esse, ela se chamava Estrada dos Aflitos. Isso para você ter uma ideia de como o prédio era antigo. A fachada dele tinha o mesmo estilo das construções da primeira metade do século dezenove. E isso tudo pra quê? Eu pergunto. Pra colocarem mais uma droga de uma farmácia. Na cidade das farmácias. Dizem até que a demolição foi ilegal, mas ninguém tem certeza.

– Ainda não estou acreditando. – João falou.

– Mas isso não é o pior. – falei. – Segundo a lenda contada por Gilberto Freyre, quem vê essa tal assombração da mulher de branco fica marcado para ter uma infelicidade ou tragédia.

– Não fala isso, porra. Vocês querem me endoidar ainda mais? – João falou saltando da cadeira.

– Deixa de tua onda, cara. A gente sabe que, na verdade, você estava era com aquela mulher lá, como é o nome dela mesmo? Esqueci – o Agenor falou e todos começaram a sorrir.

João ficou mais uns dez minutos com a gente, negando o quanto podia que estava tendo um caso com uma mulher casada, e depois foi embora dizendo que estava com dor de cabeça. Pudera, ele passou por uma situação tenebrosa. Isso, é claro, se tudo aquilo não passar de mais uma das mentiras dele.

Nós pedimos mais algumas cervejas, duas ou três se lembro bem. E entre uma e outra, recebemos mensagens do João dizendo que não estava conseguindo pregar os olhos. “Não tô conseguindo parar de pensar nessa assombração.” “E se for verdade esse lance da tragédia em quem vê?” “Galera, acho que vocês tinham razão, eu até já fui naquela farmácia.” Essas eram as mensagens que chegavam para a gente no grupo, uma hora depois que ele foi para casa. Num intervalo de quinze minutos entre cada uma.

Ficamos por lá mais meia hora e saímos.

Ficou decidido por unanimidade que antes de o Agenor deixar todos em casa, passaríamos na frente da farmácia para ver o local com os próprios olhos.

Era uma e meia da manhã.

A avenida estava quase deserta. Só alguns carros ainda cortavam o silêncio da madrugada de sábado na capital. No volante, o Agenor. Eu no banco do passageiro ao lado e o Cláudio deitado no banco de trás. Acho que dessa vez ele havia apagado bem rápido com a bebida.

Estávamos chegando perto do Pão de Açúcar e de lá já dava para ver a fachada da farmácia. Nada de sobrado. Nada de assombração. Nada de mulher de vestido branco esperando pessoas desafortunadas passarem. Eu apontei para a fachada. O Agenor confirmou e depois deu um grito para que o Cláudio acordasse e olhasse também. Ele levantou-se, virou a cabeça, confirmou e depois arriou no banco novamente.

Eu peguei meu celular para mandar uma mensagem tranquilizadora para o nosso amigo e de cara tive uma surpresa. Havia uma mensagem dele no grupo: “Tem alguém aqui em casa.”

– Ei, ei, ei… eu acho que o João pode estar com algum problema em casa.

– O que foi? – Agenor perguntou.

– A última mensagem dele dizia que tinha alguém lá na casa dele. Mas isso foi há mais de meia hora e ele não está visível desde essa hora. – falei.

– Meu irmão, você não sabe como é o João? Isso deve ser outra coisa da cabeça dele. – Agenor falou guiando o carro pela avenida. Depois de um tempo viramos à esquerda na rua da Harmonia. Eu já estava com o telefone no ouvido esperando que ele atendesse, mas só fazia tocar e tocar.

– Pode ser que seja coisa da cabeça dele, mas pode ser alguma merda também, cara. – falei. Eu estava preocupado. Porém, o Agenor parecia convencido de que aquilo era mais um dos delírios do amigo. – Olha, me deixa aqui que eu vou dar uma subida no apartamento dele. – falei soltando o cinto, logo depois que o carro virou à direita na farmácia da rua Conselheiro Nabuco.

– Tá bom. De lá tu vai andando pra casa? – Agenor perguntou.

– Vou sim. – respondi. – Deixa o Cláudio em casa e pode ir, eu vou andando daqui mesmo.

– Beleza. Boa noite, Fredinho, até a próxima. – ele falou, e eu respondi com um sinal de positivo, entrando na ante-sala do prédio. Eu esperei até o carro sumir de vista na rua e entrei. A escada na minha frente me fez testar meus reflexos, mas eu a superei. Andei um pouco e parei no vidro lateral que dá na portaria.

– Boa noite, Fred. – o porteiro me cumprimentou.

– Boa, Gabriel… olha, o João está me esperando. – falei.

– Essa hora? – ele retrucou.

– Você não sabe como é ele? – perguntei.

– Pior que sei. Vai lá. – ele falou sorrindo.

Deu para perceber que ele não estava muito convencido, mas como eu costumo vir aqui bastante, eles nem me anunciam mais. Ouvi ele falando algo sobre o elevador de serviço, mas não dei atenção.

Apertei o botão e fiquei esperando o elevador chegar.

Décimo quinto andar. Nono andar. Quinto andar. Térreo.

Eu entrei e apertei o um e o oito, e depois confirma.

Enquanto o elevador subia, eu tentava novamente ligar para ele e nada.

O elevador parou no décimo oitavo andar, mas a porta não abriu. Ao invés disso, começou a fazer uns barulhos estranhos como se ela estivesse emperrada ou um dos freios estivesse sendo acionado.

Eu tentei interfonar, mas não funcionou. Eu fiz gestos para a câmera, mas de nada adiantou.

Fiquei assustado. Percebi que estava ficando assustado com muita frequência naquela noite e aquilo me preocupou. Entre um pensamento e outro sobre os últimos acontecimentos, a luz se apagou.

E lá estava eu num elevador travado, no escuro, e o pior, no meio da madrugada.

Já vai em dez minutos parado e eu não tenho ninguém para ligar. Já tentei o João e ele não atende. Eu não conheço mais ninguém nesse prédio. E ele nem tem tantos moradores ainda. Decidi que vou esperar só mais cinco minutos.

Do nada, me vem à cabeça o que o Gabriel falou: “Não usa o social, vai pelo de serviço.”

Direciono a lanterna do celular para todos os cantos do elevador para tentar ter uma ideia, mas parece que nessas horas você simplesmente não consegue pensar. O cérebro vira uma caixinha de brinquedos.

Eu ouço um barulho. Parece que agora a porta vai resolver abrir.

E ela realmente abre. Mas naquele instante eu preferia que ela tivesse continuado fechada. Um homem pulou em meu pescoço. Ele estava todo ensanguentado, devia ter brigado com o João ou sabe-se lá quem.

Eu luto com ele, mas ele é mais forte. Muito mais forte. Com o avanço dele, eu bato a cabeça no espelho, que se quebra. Ele me puxa para perto dele e por sorte os cacos do espelho caem atrás de mim e não em mim. Fico aliviado. Mas não por muito tempo.

Eu luto contra a investida dele, mas o cara estava ensandecido. Eu senti o sufocamento. Era uma sensação como nunca havia experienciado antes. O coração começou a bater mais forte, a respiração parecia que estava passando por uma agulha para os pulmões e o nervosismo piorava ainda mais a situação. O meu corpo parecia estar em brasas. O meu sangue se transformava num líquido borbulhante. Aquilo era terrível.

O cara estava com o rosto todo ensanguentado. Havia cortes nos braços e no tronco, onde o sangue vazava pelos poros da camisa e criava uma poça parecida com a de suor, só que rubra. O homem estava em fúria e disposto a me matar, e eu nem sabia o porquê.

Uma sensação de desmaio começou a tomar o meu corpo e a minha mente ficou lenta. Será que é assim que as pessoas morrem? Ainda tive tempo de pensar isso. Acho que a resposta vai ficar para depois. O homem de repente me soltou e eu caí sentado perto dos cacos do espelho no chão do elevador e comecei a tossir. Havia acontecido alguma coisa.

O homem recuou devagar para o corredor. Ele deu dois passos para trás e caiu de joelhos. Eu ainda não conseguia enxergar direito. Ou respirar direito. Eu sentia como se nem estivesse no meu próprio corpo.

O homem caiu de bruços e começou a sangrar violentamente. Havia uma faca na parte de trás do pescoço. Alguém o acertou bruscamente na nuca.

Em pé na porta do apartamento, o João. Ele estava em apuros, afinal. A mensagem não era mais um dos seus delírios como falou o Agenor. O seu corpo pendia para a esquerda, apoiado no portal da porta.

A minha vista começou a voltar ao normal e eu percebi que ele estava sangrando pelo abdômen, o homem devia ter-lhe esfaqueado.

– Cara, o que foi isso? – eu pergunto, sem conseguir me levantar.

– Esse é o Jonatan, o marido da mulher que eu estava tendo um caso. – João falou observando o vai e vem da porta do elevador, que havia resolvido voltar a funcionar, mas o corpo do brutamontes impedia que ela fechasse.

– Cacete, cara… então era verdade! – falei, surpreso.

– Pois é, e agora eu tive o que mereci. – João falou sentando-se perto da porta, com a cabeça inclinada para cima. Ele havia levado uma surra e ainda estava com um ferimento grave. – Ele veio tirar satisfação e as coisas saíram do controle, eu tentei avisar, mas vocês não receberam a mensagem. O pior é que o porteiro nem avisou sobre ele. Deve ter pulado o muro e subido pelas escadas, não sei. Depois que a merda já estava feita, ele disse que não seria incriminado por nada, alegaria legítima defesa. Mas aí ele ouviu o elevador e entrou em desespero, pulando para cima de você quando a porta abriu.

– Você já pediu uma ambulância ou ligou para a polícia? – perguntei tentando mais uma vez me levantar, mas na hora notei que minhas mãos estavam sangrando muito e as dores no pescoço me paralisavam. Não houve resposta do João. – Tem mais alguém morando nesse andar, pelo menos?

Eu fiz força e fiquei de joelhos, agora só faltava me levantar e sair dali. Meu Deus, cadê o meu celular, preciso ligar para a emergência. Pensei. Ele estava do lado do João. Na confusão ele deve ter voado para perto dele.

– Eu vou… – eu não consegui terminar a frase, o corpo do João pendeu para o lado de fora do apartamento, na direção do elevador, e caiu pesadamente no chão logo em seguida.

Naquela hora eu sabia que ele estava morto. Foi então que eu dei um passo à frente, não havia nada de grave comigo. Agradeci aos céus por isso.

Quando dei o segundo passo, algo fez o meu corpo congelar por completo. Eu não conseguia mover um músculo sequer. Havia mais alguém na casa do João. Alguém que na mesma hora me fez pensar nas minhas probabilidades, de novo. Uma mulher de vestido branco. A mesma que havia aparecido para mim mais cedo naquela noite, e que estava lá agora apenas para confirmar que uma desgraça ou infelicidade estava para acontecer comigo. Assim como aconteceu com o meu amigo.

 

Rafael Pedrosa, 11 de janeiro de 2018.

4 comentários sobre “O Fantasma do Sobrado da Capela

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