O trânsito estava caótico. Guardas e fiscais tentavam colocar ordem na situação, mas falhavam miseravelmente. Passava das onze horas e essa era apenas a primeira surpresa que eu teria naquela noite.

Quando digo surpresa é pelo simples fato de aquele inferno de carros estar ali aquela hora da noite. Quem conhece bem a cidade, e eu posso dizer que me encaixo perfeitamente nesse perfil de morador, sabe que as ruas estão sempre lotadas de carros quase que o tempo inteiro, em especial nos horários de pico. A menos, é claro, que seja algum tipo de feriado ou esteja em período de férias escolares. E era exatamente esse o caso, estávamos na terceira semana de dezembro. Ou seja, não presenciávamos a loucura da véspera do Natal (ainda), e os colégios e faculdades já haviam liberado pelo menos metade dos alunos. Então aquele trânsito todo era, no mínimo, atípico.

E aqui estou eu atrás do volante sem conseguir pensar em nada a não ser comida. Há pelo menos duas horas que o meu estômago trava uma batalha com o motor do meu Fiat Uno preto para ver quem faz mais barulho.

– Bora, gente… agiliza isso aí! – eu falo com a cabeça inclinada para fora do carro, como se isso fosse capaz de resolver num piscar de olhos o problema de congestionamento de numa via movimentada como esta. Eu me chamo Pietro, aliás, e trabalho como garçom num restaurante de comida regional, mas hoje precisei resolver muitos problemas, tantos que nem pus meu pé lá. Ainda bem que eu gosto do meu emprego e tenho um chefe que me paga em dia, apesar de toda essa crise por aí. Mas, para falar a verdade, isso nem vem ao caso, a única coisa que me preocupa nesse momento é que algo deve ter acontecido aqui para estar este trânsito infernal e eu preciso chegar logo em casa, o meu pai está me esperando. – Pelo amor de Deus, né? – gritei com uma mulher que entrou pela contramão para pegar a rua à minha direita. – Já não basta o trânsito, não é, sua idiota? – falo isso e um dos guardas olha para mim concordando, mas ele não faz absolutamente nada, continua gesticulando.

Quando se está cansado e com pressa, parece que uma entidade espiritual responsável pelo trânsito fica sabendo e faz de tudo para dificultar a sua vida. Penso nisso enquanto me dou conta de que eu estou nessa desde as nove horas da noite, quando passei pela rua entre o shopping Plaza e o Walmart e depois entrei na avenida 17 de agosto. E sem poder usar o celular desde… sei lá que horas eram. A bateria morreu no meio da tarde.  

Depois de engatinhar por vários minutos nesse asfalto, o trânsito começa a fluir perto do motel Senzala. E tinha algo de errado mesmo, uma ambulância já estava no local para socorrer uma idosa e uma outra pessoa que eu não consegui identificar o sexo ou a idade. Eles se envolveram num acidente com uma moto, e o cara da moto estava sentado no meio-fio com as mãos na cabeça. Tinha muito sangue na rua, e a polícia já havia chegado. Além da ambulância, de um carro da companhia de trânsito e mais algumas pessoas falando de um outro acidente que aconteceu mais cedo.

Não fiquei muito tempo para que o trânsito não se tornasse um problema ainda maior. Entrei debaixo do viaduto e fiquei um tempo esperando o sinal abrir. Agora, além da sirene da ambulância, do barulho do motor e do meu estômago em desespero, escuto também os carros, caminhões e motos passando acima de mim na 101, seguindo para o norte e para o sul da capital. A luz verde acende e eu acelero para chegar logo em casa, já era quase meia-noite.

Mais um sinal, agora na Praça de Dois Irmãos, que fica na frente da entrada do zoológico. O lugar estava um breu.

Normalmente durante a semana, à esta hora, ainda tem uma ou outra alma tentando chegar em casa, indo para a parada de ônibus ou coisa que o valha, mas hoje estava de um jeito que parecia abandonada. Eu olho pelo retrovisor e não há carro nenhum atrás de mim.

A princípio isso não me pareceu preocupante. Todos os carros que estavam atrás de mim podem ter pego algum dos acessos à BR. Penso. E na mesma hora eu olho pelo parabrisa. Os que estavam na minha frente deviam ser todos possantes e seguiram em alta velocidade sem que eu percebesse. Penso em seguida. Mas essa constatação não demora muito para ficar em segundo plano, um homem surgiu da entrada do zoológico e parecia estar correndo na minha direção.

Confesso que de cara eu achei que fosse o meu pai. Ele já está bem velhinho e doente. Inclusive, ele está me esperando em casa e eu preciso chegar logo lá. Ele disse que hoje queria conversar algo comigo e iria dormir na minha casa. Por mim tudo bem, eu me preocupo é com a Laura, minha madrasta. Ela também está doente e ambos cuidam um do outro já há alguns anos. Desde que ele e a minha mãe se separaram.

O homem continua se aproximando e agora eu estou realmente assustado. Ele se veste igual ao Seu Cláudio, o meu pai. Camisa branca de malha, com outra marrom de flanela e botões por cima, sempre aberta. Uma calça preta e sandálias de couro. O cabelo desgrenhado e uma barba igualmente bagunçada, ambos brancos, formando uma coisa só, parecendo um desses capacetes que vêm até o queixo. O cara era igualzinho. E a cada segundo ele se parecia ainda mais com o meu pai. Até o jeito de correr. Pera aí, é o meu pai. Pensei na hora. – Pai! – gritei. Mas ele não ouviu. Quer dizer, parece ter ouvido, e justamente na hora em que isso aconteceu, ele desviou da minha direção e seguiu correndo no sentido do Bar da Curva.

Eu desci do carro sem sequer pensar no que estava fazendo e comecei a correr atrás dele. – Pai. Volta aqui! – eu gritava, embora não tivesse certeza se era ele.

Depois de correr uns dez metros, outra coisa chamou a minha atenção. Um animal, ou se eu tivesse fumado alguma coisa estragada (que, honestamente eu não lembrava) poderia ser uma alucinação. Ele andava tranquilo e parecia passear calmamente, mas era uma droga de um leão. Pois é, você não leu errado, era um leão e para a minha agonia aquilo poderia realmente estar acontecendo; não sei se você lembra, mas eu estava na praça que fica em frente a um zoológico.

Aquele bicho deveria ter uns duzentos quilos e o meu coração começava a querer sair pela boca. Ele andava como se nada estivesse acontecendo, mas só até o momento em que percebeu a minha presença, daí ele fixou os olhos nos meus.

As minhas pernas começaram a tremer e eu sabia que precisava fugir.

O bicho estava dando passos sorrateiros na minha direção e eu não sabia o que fazer.

Uma gota de suor brotou na minha testa e correu pela lateral do meu rosto até pingar no asfalto. Eu vasculhei com os olhos a praça inteira e não vi ninguém que pudesse me ajudar.

Eu tinha a opção de correr atrás do meu pai e desaparecer pelos acessos à Universidade Rural. Uma alternativa bastante perigosa, diga-se de passagem. E a outra opção, que era correr para o carro e sumir dali, torcendo para chegar lá primeiro que o bicho e não virar o lanchinho da meia noite de um animal selvagem. Eu fiquei com a segunda opção.

Quando as minhas pernas pararam de tremer eu corri. Corri como se a roupa da minha mãe estivesse no varal e uma chuva tivesse acabado de começar. Corri como se fosse levar uma pisa dela por não ter ajudado a lavar os pratos do almoço. É, eu acho que você me entendeu. E para a minha surpresa, o bicho não correu atrás de mim. Na verdade tinha algo entre ele e eu, um bicho talvez, que era exatamente o que ele estava espreitando e eu entendi errado. Ele nem sequer esboçou vontade em correr atrás de mim e me devorar. Um alívio. O leão desistiu de caçar o que quer que aquilo fosse também e continuou caminhando devagar na minha direção, mas não parecia hostil. Sinto que aquilo foi apenas para me apavorar.

Naquele momento eu estava agradecendo da forma que podia aos funcionários do zoológico por manterem esse bicho alimentado. Com as mãos trêmulas eu até fazia o sinal da cruz no meu peito.

Depois que o medo passou um pouco eu religuei o carro e acelerei em direção ao bar, que ficava no caminho para a minha casa, e claro, eu precisava encontrar aquele homem, quer ele fosse o meu pai, quer não.

Dei uma olhada no retrovisor e vi o leão andando para o meio da rua e se deitando lá. Meu Deus, eu poderia ter sido devorado. Ou pior, poderia ter virado o brinquedinho de um animal com o triplo do meu peso, ficaria para lá e para cá entre suas garras e presas, até que ele decidisse, enfim, me devorar. Pensei tentando recuperar a sanidade.

E então eu segui com o carro devagar tentando encontrar o homem. Olhei no bar. Olhei nos portões da universidade. Olhei nos cercados que dão nos departamentos. Vasculhei o caminho até a reitoria, através da clínica veterinária e nada. Era como se ele nunca tivesse estado lá. Quer dizer, parecia que ninguém estava lá. A cidade inteira dormia um sono profundo. A única coisa viva eram os gatos que ficam nas barracas perto da parada de ônibus.

Desisti de procurar e cheguei a conclusão de que a melhor coisa a se fazer era ir para casa. Com o celular descarregado e ninguém por perto na rua, eu estava de mãos atadas. Nem para a polícia eu poderia ligar e contar o que aconteceu.

Eu dirigi por mais alguns minutos e cheguei. Desci do carro, abri a garagem, entrei e depois a fechei. Havia uma luz saindo da janela. Poderia ser meu pai. Mas também poderia ter sido ele lá na praça. E, se fosse, não teria como ele chegar aqui mais rápido do que eu vindo de carro. Eu só posso descobrir entrando. Pensei. E então eu girei a chave e entrei. Não havia ninguém.

A sala estava mais ou menos como eu a deixei ao sair na hora do almoço. Tudo no seu lugar. O sofá com a manta meio amassada. O copo do café da manhã ainda na mesa de centro. O desgraçado do carregador pendurado na tomada. Hoje não era um dia para eu te esquecer aqui, porra. Pensei, quase transformando o pensamento em palavras. E, por fim, a estante onde ficam a TV e o som, também do jeito que a deixei mais cedo.

Então eu corri para o carregador e liguei ele no celular.

Enquanto a bateria pega alguma carga para que eu possa ligar para a polícia ou para os bombeiros, eu vou procurar o meu velho pela casa. Pensei. Pode ser que ele tenha pego no sono ou coisa parecida. Concluí.

Eu entrei na cozinha e nada.

Fui para o meu quarto e lá também estava do jeito que eu deixei antes de sair pela manhã.

O próximo era o quarto que eu uso para guardar coisas que ainda não têm lugar na casa (e talvez nunca tenha, sendo bastante honesto). E ele também não estava lá.

O último lugar era a área de serviço que dá num quintal improvisado e lá estava ele dormindo numa cadeira de balanço velha que ele mesmo me deu quando eu vim morar sozinho aqui. A casa é dele e eu moro aqui desde que eles se separaram e ele foi morar com Cláudio, meu irmão. Meu pai me ajuda com as despesas, porque vida de garçom, já sabe, né?

– Pai, está tudo bem? – pergunto.

– Oi, filho. – ele acordou assustado. – Eu vim pra cá por que estava mais fresquinho, mas terminei pegando no sono.

– Tranquilo pai. Como foi o seu dia? Faz tempo que o senhor chegou? – pergunto encostando o meu ombro na parte lateral da estrutura da porta. Ele olha para mim, esfrega os olhos e se arruma na cadeira.

– Vim para cá faz pouco tempo. Quer dizer, que horas são?

– São meia noite e quinze.

– Nossa, eu apaguei por muito tempo. Faz tempo que você chegou? – perguntou sentindo-se envergonhado. Ele sempre se sentia assim quando cochilava.

– Nada, cheguei agora. – falo isso observando a roupa dele, igual a do homem na praça.

– Muita coisa pra resolver, né? Eu cheguei aqui logo cedo, eram umas nove horas eu acho.

Quando ele falou isso, eu já desconsiderei que fosse ele na praça, especialmente por que ele nunca apresentou quadro de loucura ou muito menos de sonambulismo.

– Voltei tarde mesmo e ainda peguei um trânsito dos infernos. E pra piorar vi um homem estranho na praça e… acredite, o leão do zoológico escapou.

– Meu Deus, temos que avisar à polícia. – ele falou levantando-se. – Deixa eu pegar o meu celular pra ligar. – meu pai falou tendo o que parecia ser um ataque nervoso.

– Calma, pai.

– Temos que avisar a alguém. – ele falou pegando o próprio celular que havia deixado no banquinho que fica ao lado da cadeira. – Droga, essa porcaria está sem sinal de novo.

– O meu ficou sem bateria hoje no meio da tarde e eu não tive como carregar porque esqueci o carregador em casa, mas ele já está carregando na tomada. – falei pegando o banco e sentando na frente dele. – Já já eu ligo. Deixa eu falar uma coisa para o senhor…

– Diga. – ele falou sem conseguir esconder a preocupação com o acontecido.

– Pai, o homem que eu vi era o senhor.

– É o quê, filho?

– Isso mesmo, eu acabei de ver uma assombração do senhor. Não tô brincando.

– Sua mãe que é assim, vive dizendo que viu coisa onde não existe.

– Eu confesso que fiquei assustado. Era um homem igualzinho ao senhor, se vestia assim como o senhor está agora (não fui indelicado ao ponto de mencionar que ele só se veste assim) e ainda tinha o mesmo cabelo e barba. E logo depois apareceu o leão. Velho, eu não soube o que fazer, saí correndo e entrei no carro. Mas o bicho tava manso.

– Graças a Deus, pelo menos isso… agora, eu… correndo à noite na praça? Que loucura. Você consegue imaginar isso? Logo eu? – falou dando gargalhadas.

– Pois é, foi bem louco. E o senhor vinha correndo do zoológico e seguia para o Bar da Curva e eu não entendi foi nada.

– O seu dia foi cheio, vai-te embora tomar um banho e dormir que é melhor. Amanhã a gente conversa.

– Vou sim. – respondi sorrindo.

– E não esquece de ligar pra polícia e avisar do leão.

– Fica tranquilo, o celular já deve ter alguma carga, eu ligo agora. Fica aí que eu já volto.

– Tá bom.

Levantei-me da cadeira e fui pegar o meu celular. Quatorze por cento carregado, já dava para fazer ligação. Eu religuei ele e esperei.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa, um mundo de notificações de mensagens apareceu. Assim como várias ligações perdidas. Meu Deus, passei algumas horas sem o meu celular e quando ligo está essa loucura. Pensei olhando para o lado e vendo a sombra da cadeira de balanço com o meu pai sentado.

Ligações de minha mãe e minha irmã. E várias mensagens. Mas a última era a que mais chamava a atenção. “Filho, estamos tentando ligar para você mas você não atende. Sinto muito dizer isso assim mas, o seu pai foi encontrado morto hoje no começo da noite perto da Praça de Dois Irmãos.”

 

Rafael Pedrosa, 21 de dezembro de 2018.

2 comentários sobre “O Homem da Praça de Dois Irmãos

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