– Ei, cara, você aí… É sério, fala comigo.

– O que foi?

– Tá sabendo que daqui não tem mais volta, né?

– Eu sei, só estou tentando lidar com tudo isso em silêncio, se for possível.

– Que dia é hoje?

– Terça. Cara, vê se não enche, me deixa quieto aqui, por favor.

– Tá bom, seu grosso. Tomara que te peguem primeiro.

Eu tinha um plano pra tentar escapar desse lugar, mas parece que vou ter que esperar pra ver o que acontece. Que bom que hoje é terça. Se pegarem ele primeiro eu ainda tenho uma chance. Se não, tô ferrado.
Daqui dá pra ver que o lugar está quase vazio. No famoso Restaurante Minuss os clientes entram e instantaneamente parecem desinteressados. Acredito que deva ser pelo cardápio. Sim, sim, definitivamente é o cardápio. Comida cara e pouco apetitosa. Os funcionários andam pra lá e pra cá, fingindo estarem superocupados. Honestamente, se algum dia isso já funcionou pra chamar clientela, hoje está obsoleto. Mas mesmo assim algumas pessoas ainda entram e escolhem comer aqui.

Tem alguém vindo em nossa direção. Me ferrei. Escolhe ele, por favor. Escolhe ele.

Arrrrrrrr..… tô sem coragem de abrir os olhos.

Ufa, meus pedidos foram atendidos. A mulher escolheu o rabugento.

Foi grosso comigo, agora se ferrou. E, por incrível que pareça, ele foi sem reclamar. Honestamente eu não aguento mais olhar o procedimento. Colocar vivo na grande caçarola com água fervendo. Depois partir ao meio. E etc, etc, etc. Será que depois de morto dá pra sentir as pessoas comendo os membros e saboreando as entranhas? Que pesadelo.

Bom, eu preciso confessar uma coisa… meu plano era apenas durar mais alguns dias. Dificilmente mais de uma pessoa por noite vem aqui pra pedir esse prato. Vou continuar na torcida pra que essa porcaria de lugar feche antes que mais alguém apareça. Dá pra ouvir daqui os gritos dele. Isso é insuportável, sabia? Pra quê colocar na água fervente ainda vivo? É crueldade demais. Já tem alguns dias que estou aqui. Muitos que se encontravam ao meu lado já foram levados, estraçalhados, e servidos para essas pessoas. Depois de amanhã provavelmente será a minha vez. Mesmo que cheguem mais, eu sou prioridade por estar aqui há mais tempo. É como o dono dessa espelunca costuma dizer: “Segunda, quarta e sexta, cortes especiais e sopas na mesa. Terça, quinta e sábado, um humano inteiro amanteigado.”

 

Rafael Pedrosa, 27 de Julho de 2016.

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