– Hoje o dia vai ser puxado. Preciso terminar de limpar o quarto de Thiago e depois dar uma passadinha no mercado. – ainda deitada e de olhos fechados, Leila falava consigo mesma, tentando encontrar coragem para se levantar. Ao terminar a frase ela nota que sua voz soava estranho, quase sem nenhuma propagação. Ela tinha cinquenta e nove anos, mas sua audição estava incrivelmente jovem, como costumava dizer o seu otorrino.

Leila parou de falar, respirou fundo e esticou os pés para se espreguiçar. A ponta do dedão direito tocou em algo que se mexeu, fazendo Leila olhar rapidamente para baixo. E o que ela viu, a fez recolher as pernas automaticamente.

Ela esfregou os olhos para tentar enxergar melhor, e olhou novamente. Era um brinquedo em formato de vaga-lume do tamanho de uma maçã. Leila conhecia bem aquele brinquedo. Era a mini-luminária que sua mãe, Dona Cleide, deu para Thiago quando Leila o adotou. Ele não gostava muito do brinquedo, o que terminou fazendo ela guardá-lo pra si como lembrança de sua mãe.

Depois do seu falecimento, Leila tomou ainda mais apreço por esse objeto. Ela o guardava no criado mudo do lado da cama, e dificilmente trocava as pilhas ou ligava-o. Mas, hoje, lá estava ele, e, para sua felicidade, funcionando.

Ela estica os pés e consegue pegá-lo. A escuridão era quase total, mas Leila já notava que estava num local estranho. Tatear pelo escuro era aterrorizante. Então, ela preferiu ligar o brinquedo e descobrir com os próprios olhos.

Na sua frente, ripas de madeira enfileiradas.

O que está acontecendo aqui? Ela coçou os olhos incrédula, mas continuou tendo a mesma visão. Madeira por todos os lados. E foi então que teve a infeliz constatação de que estava presa numa grande caixa.

Leila notara que aquilo não era exatamente um caixão tradicional, mas sim uma caixa grande e rústica, toda fechada. Um ataúde improvisado ou algum container para transporte. Ela não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, de onde estava e muito menos de como chegara ali. Dentro daquele inferno claustrofóbico, ela apertava no peito o brinquedo do filho.

O espaço interno era pouco. Cabia ela e, com muito esforço, sua mobilidade, que já não tão boa. Era possível, por exemplo, se virar para os lados e deitar-se de bruços. Ou até ficar em posição fetal, importante para o alívio de suas dores lombares.

Aquilo já durava mais de uma hora. De todas as dores daquela nova realidade, a maior, com certeza, era não conseguir lembrar-se de nada. Leila forçava sua mente para chegar a alguma conclusão, mas a sua mais recente lembrança era da tarde do dia anterior, quando ela e Thiago saíram do tribunal, logo depois que o juiz decidiu que a guarda dele seria dela, e não do ex-marido.

O sentimento era um misto de tristeza e alívio. Agora ela viveria muito mais feliz sozinha com o filho do que jamais fora quando casada. Criar Thiago, um garoto de quinze anos, sem o pai seria um desafio. Mas ela sabia que estava preparada, senão, nem o teria adotado quando ainda era um bebê. Leila finalmente estava se vendo livre da violência do marido. Violência essa que a fez amadurecer como nunca pensou que fosse. Depois de chegar em casa e ir dormir, Leila não se lembrava de mais nada.

– Meu Deus, parece que fui dormir ontem na minha cama e acordei hoje aqui. Como é possível? – Leila escutava a própria voz voltando aos seus ouvidos enquanto ressoava em cada canto do caixão. Ela olhava para os lados. Apertava o botão de ligar e desligar do vaga-lume, como se isso fosse capaz de fazer surgir uma solução ou acordá-la daquele pesadelo. Mas de nada adiantava. O enclausuramento era real. A dor era real. Uma incapacidade desesperadora.

Mais uma hora nessa situação. Leila já havia gritado, esperneado, e ficado ao ponto de enlouquecer. Seus joelhos estavam machucados de tantas batidas na madeira. Assim como seus cotovelos e antebraços. Na parte interna do caixão, arranhões e marcas de unhas. Marcas ferozes. Tanto das suas frágeis mãos, quanto dos pés desgastados.

O sangue se misturava com a terra que caía das brechas da madeira. Leila sabia que mesmo que conseguisse quebrar aquela estrutura, ainda teria alguns metros de terra para cavar. O que na sua idade e condição física seria impossível.

Mas o ser humano quando está na beira do abismo parece que perde toda sua capacidade cognitiva, agindo de forma primitiva e inexplicável. A luta pela sobrevivência está acima de qualquer racionalidade. Leila começa a esmurrar a madeira. O espaço era mínimo para fazer isso, mas ela forçava e forçava. O sangue agora escorria pelos seus braços.

– Mãe, eu sinto a sua falta.

– Eu sei meu filho. Também sinto sua falta.

Se aquilo não fosse seu pensamento, só poderia ser delírio. Nessa situação, ouvir a voz do filho só poderia ser a insanidade tomando sua mente. Mas não era. A voz existia, e vinha de cima.

– Mãe, eu não queria que as coisas tivessem acontecido dessa maneira. Se pudesse eu voltaria no tempo e mudaria tudo.

Leila escutava aquilo sem poder fazer absolutamente nada. Ela tinha consciência disso. Mas continuava se debatendo no caixão. Era possível ter uma noção de onde vinha a voz. Era à sua frente, logo acima de onde estava. Distante, mas ela conseguia ouvir.

– Também te amo, meu filho. Queria poder sair daqui. Dizer mais uma vez que te amo. – ela falava aos prantos.

– Você não merecia isso, mãe.

Leila escuta o choro do seu filho sem poder fazer nada. Completamente exausta, ela olha mais uma vez para o teto. Sua visão das últimas duas horas, para dizer o mínimo, era aquele aglomerado de madeiras que cercava todo o seu corpo. Manchas vermelhas completamente disformes e heterogêneas, uma mistura de sangue e terra úmida. Resultado de uma luta injusta.

Suas forças já estavam esgotadas. Equilíbrio mental era uma vaga lembrança. Seu corpo evanescia. Mas os olhos prevaleciam, embora sem qualquer esperança.

Quando a voz do seu filho ficou ainda mais clara, seu semblante mudou. Algum consolo, afinal. Para Leila, saber o que aconteceu que a colocou naquela situação era mais reconfortante do que a própria chance de sobreviver. A morte já era bem vinda naquele momento.

E ela força suas energias para conseguir escutar com mais precisão. E o que vem lá de cima é exatamente o que ela estava precisando no momento.

– Mãe, talvez você não saiba o quanto a gente lutou. Mas, infelizmente, a doença sempre conseguiu nos vencer. – disse Thiago chorando. – Acredito que a essa altura a Senhora já esteja num lugar melhor. Torço muito por isso. – continuou. – Espero que um dia alguém encontre a cura. Assim, mais ninguém precisará sofrer com Alzheimer e Esclerose Múltip…

– Thiago! – interrompeu sua esposa, a Amélia. – Você vai se atrasar pro trabalho, amor. Deixe que hoje eu dou o almoço da sua mãe.

 

 

Rafael Pedrosa, 20 de julho de 2016.

4 comentários sobre “Um Dia pra Esquecer

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