Nunca pensei que fosse viver pra ver esse menino, que um dia desses tropeçava nos próprios pés brincando com o pai, e hoje tá aí, se aprontando pra casar.

Sim, meu Luizinho tomou rumo na vida, seguiu um bom caminho. E, Victor, que Deus o tenha, de onde estiver agora deve estar muito orgulhoso do filho. Não quero ficar lembrando dele hoje. Se for pra chorar, que seja de emoção pelo grande dia, e não pela falta que me faz. Vamos todos celebrar a vida nova que está diante do meu menino.

Fico aqui olhando feito uma abestalhada pra ele abotoando o paletó. Isso me recorda uma das tantas vezes em que ele me constrangeu na frente dos outros. Coisa de filho, sabe?

Ele era quase um adolescente e estávamos jantando com meu irmão, cunhada e sobrinho. Luizinho, atrasado como sempre, chega à mesa por último, de boné, camisa ao avesso e cara emburrada. Todos estavam comendo, quando ele, do nada, começa a afinar a voz e balançar a cabeça para um lado e para o outro. Confesso que isso me irritou profundamente.

E lá está ele, precisando de ajuda com a gravata. Fujo daquela lembrança com esse pensamento. Incrível como nossas crianças crescem e a gente nem nota.

Claro meu filho, você está lindo. Por que será que toda mãe é assim, hein? Não lembro de ser tão coruja. Mas, como se trata de uma ocasião única na vida de um filho e de uma mãe, não me importarei em parecer assim hoje.

Todos os detalhes ajustados, Luizinho está pronto para seguir seu caminho até o altar. Ele se vira em minha direção e me observa com o mais tenro olhar que esses olhos já receberam. Acho que só se compara ao de quando ele se formou.

Eles estavam brilhando de emoção. Meu filho agora era um médico, nem consigo acreditar – pensei na hora. Ao chegar no palco pra receber o diploma ele passa direto pelos representantes do curso para pegar logo o canudo. Estava realmente nervoso. Algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto, quando Guilherme, seu melhor amigo e também formando, enxugou-as e deu um beijo na bochecha, ambos se abraçaram carinhosamente e começaram a pular, como se ninguém estivesse lá pra ver.

Fiquei furiosa. Aquela era uma universidade bastante tradicional e não foi essa a educação que eu havia dado para meu filho.

Mas isso fica pra outra hora, eu nunca estive tão feliz em toda a minha vida.

Saímos do quarto, seguimos pelo corredor e entramos num acesso que dava para a entrada de onde iria acontecer a cerimônia.

Tentando ao máximo conter a emoção, entramos. Todos os rostos voltados para nós, o noivo e a mãe do noivo, elegantíssimos, modéstia à parte. Numa estrutura esplêndida ao ar livre.

Familiares, amigos, conhecidos e até pessoas que nunca vi na vida.

Percebo que me lembro bem desse corredor, acho que de quando estávamos nos preparativos nessa mesma casa de eventos pro casamento de uma vizinha, a Agatha. Foi isso mesmo, e Luizinho estava conversando com uns amigos quando cheguei, ele não notou, eu fiquei de longe.

Uma das amigas parecia incomodada com algo, o cigarro que ele estava fumando, acredito. Foi então que Guilherme chegou, dando um abraço desses bem apertados nele. Eles pareciam íntimos, muito mais do que simples amigos, pra falar a verdade. Até de mãos dadas eles estavam.

Sabe aquelas situações em que você nem sabe como descrever o quão irritada está? Foi exatamente assim que me senti. Era inaceitável. Se naquela época Victor ainda estivesse vivo ficaria envergonhado.

Mas de qualquer forma, a gente releva esse tipo de coisa, ou pelo menos tenta. Ele é o meu filho, afinal. Agora estou sentada aguardando o tão esperado momento. Meu filho nunca esteve lindo assim, tenho certeza. E como já falei, ainda bem que ele tomou um rumo na vida.

Não quero mais o antigo Luizinho, ele ficou no passado. Honestamente, a sociedade não tolera esse tipo de coisa. Tenho medo que sofra preconceitos. Com o filho dos outros tudo bem, eu tenho que respeitar. Mas com o meu filho, não. Definitivamente, não. Falta de modos à mesa, descortesia a professores e desrespeito a quem não é fumante são absurdos impensáveis. Mas vou parando por aqui. Porque, lá por detrás das fileiras de cadeiras brancas está vindo o meu querido e amado genro, o Guilherme.

 

 

Rafael Pedrosa, 06 de Abril de 2016.

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