O caminho até a sua iminente condenação parecia interminável. Mas, a cada passo que ele dava, se orgulhava ainda mais de tudo o que fizera durante a vida. Aceitava a desventura que o acometera, e seguia o seu caminho.

Ele era o tipo de pessoa que adorava ajudar os outros, até mesmo pessoas que nem conhecia.

Enquanto caminhava, ele lembrava de uma vez em que, por acaso, conheceu uma mulher que parecia perdida. Estavam andando na mesma direção, não lembra bem pra onde, e após um ‘bom-dia’ daqueles que a gente dá por simples educação, ela desabafa que está desesperada pensando em pedir dinheiro emprestado para pagar uma dívida. Após uma curta conversa, ele sugere que ela, ao invés disso, trabalhe dobrado e consiga, a longo prazo, o que lhe falta para quitar o débito. Ela olha para ele com admiração e agradece pelas palavras: – Você abriu meus olhos.

E assim ele seguiu seu caminho.

As recordações não paravam e agora o que vinha à sua mente era uma outra lembrança tortuosa. Ele estava sentado numa escadaria íngreme perto de onde trabalhava, fazendo um lanche. Um idoso passou por ele e seguiu para o topo. Enquanto andava, com alguma dificuldade, o senhor balbuciava palavras saudosas e um tanto rancorosas: – Ela não podia ter me abandonado desse jeito, não era pra ter morrido. Quanta falta eu sinto, meu Deus. Não vou mais conseguir viver. Matilda, me espere, eu estou chegando. Dessa altura eu consigo, estou chegando.

Senhor, não faça isso. Sua mulher ficaria muito triste com um absurdo desse. – ele falou olhando-o nos olhos.

– Você não me conhece e não sabe o que eu estou sentindo, ela era a razão do meu viver. – bradou rispidamente.

– Honestamente, nada garante que vocês vão se encontrar se o senhor der cabo da própria vida. – ele comentou tentando demonstrar confiança no que falava. – Já pensou nisso? Pare e imagine a tristeza que isso vai causar para quem o ama. O senhor, desculpe a sinceridade, está sendo egoísta. – concluiu.

– Acho que você tem razão. – o senhorzinho falou olhando para baixo envergonhado.

E assim ele seguiu seu caminho.

Agora cansado, muito mais do que pensou que poderia ficar, ele anda, cambaleante, relembrando outro momento altruísta de sua vida.

Ele havia ido visitar um amigo doente, e de onde estava, dava pra ver todas as outras pessoas que sofriam com doenças, muitas delas terminais. Trouxera dois pães na ocasião, desses grandes e recheados. Um para o amigo e o outro que ele iria levar pra casa para cear. Não via a hora de chegar em casa e saboreá-lo. Porém, ao ver a situação das pessoas, ele acabou desistindo e, lá mesmo, partiu pedaços pequenos e distribuiu entre os presentes.

E assim ele seguiu seu caminho.

Quem o conhece sabe bem o significado da palavra admiração. Inimigos ele tinha. Também, quem é que não tem? Mas ele nunca desistiu de agir certo. Fez enxergar, ressuscitar e ainda dividiu o pão. Dizem que o fim que ele levou foi apenas um recomeço.  

 

 

Rafael Pedrosa, 24 de Março de 2016. (Páscoa)

2 comentários sobre “Pra morrer basta estar vivo

  1. Ai, que lindo! Achei super profundo. Vê mesmo como é “fácil” agir como Cristo. Enquanto lia, não fazia ideia de que era ele. Podia nem ser.
    Muito bom esse.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s